Infulero

Oooooo ooooo Guinazu!!!!

Posted on: 28 outubro 2009

Fonte: Globo.com 28/10/09 – 08h05 – Atualizado em 28/10/09 – 10h36

Guiñazu de peito aberto: as lembranças e os sonhos do maior ídolo colorado

Em entrevista exclusiva, capitão do Inter faz declaração de amor à torcida, lembra que quase jogou no Grêmio e admite: sonha com o título brasileiro

Alexandre Alliatti Porto Alegre

O torcedor colorado olha o calendário, vê o dia 6 de dezembro de 2009 e deixa o pensamento viajar. Imagina um estádio lotado, com cada canto avermelhado de expectativa. Prevê um jogo de tensão contra o Santo André. Sonha com uma explosão de euforia no apito final. Visualiza, no meio do campo, um palco. E pensa em um argentino, talvez com a cabeça raspada, talvez com cabelo moicano, caminhando para lá, com a braçadeira de capitão devidamente acomodada no braço. E aí sonha com um gesto para o alto, com uma taça erguida, com a repetição de uma festa que teima em não acontecer há 30 anos. E o torcedor colorado não sonha sozinho. Pablo Horácio Guiñazu sonha junto.

image001

Guiñazu sonha como o torcedor colorado, com o título brasileiro

O ídolo máximo dos colorados recebeu o GLOBOESPORTE.COM na manhã de terça-feira para uma conversa exclusiva no prédio onde mora, no bairro Três Figueiras, em Porto Alegre – suspenso, ele não enfrenta o São Paulo nesta quarta. Entre um gole e outro de café com leite, o argentino bom de papo falou sobre as andanças na carreira, resgatou os primeiros passos no futebol, brincou com as aventuras na Rússia, lembrou do dia em que duelou com Zidane, admitiu que quase foi para o Grêmio, comentou a expectativa de ir para a Copa do Mundo e mostrou olhos de brilho mais intenso ao dizer que sonha, a cada instante, com o título de campeão brasileiro.

Acima de tudo, Guiñazu falou sobre a relação com uma torcida que o adotou como maior ídolo desde a saída de Fernandão. Abaixo, o internauta lê os principais trechos de uma entrevista de quase uma hora de duração – conversa que, na prática, é uma declaração de amor do Cholo aos colorados.

GLOBOESPORTE.COM: Para quem olha de fora, para quem não é jogador, é difícil imaginar a sensação de um atleta ao ir a campo e ouvir um estádio inteiro cantar uma música para ele, como acontece com você. Ao ouvir aquele “Ôooooo, Guiñazu”, o que passa pela sua cabeça?

GUIÑAZU: – Parece um sonho. É tudo que sonhei quando criança, de imaginar o ambiente de um jogo todo. Foi meu sonho, e estou conseguindo. Eu lembro muito das pessoas que conheci quando criança, dos amigos de infância, dos colegas de colégio. Às vezes, eu faltava aula para jogar futebol, e as professoras deixavam eu ir, porque sabiam que eu era responsável. Lembro dos meus pais, meus irmãos, que trabalharam para me dar a grana para a passagem para Rosário. São pequenos momentos que passam rápido pela cabeça. Não posso deixar de lembrar de minhas crianças, Lucas e Matías, de Érika, minha esposa, que estão comigo em todos os lugares. Meus amigos ainda hoje ficam emocionados, dizem que eu não tenho a dimensão de onde cheguei. Eu luto no dia a dia, estou feliz, mas não tenho a dimensão de onde saí e de onde estou agora. Meus amigos falam: “Cholo, isso dá alegria, dá orgulho.” Lembro de todos. Sigo jogando por eles, que fazem força, que sofrem comigo. Lembro de todos. E não tenho formas de agradecer à torcida. Não tenho palavras. Só posso fazer o melhor dentro de campo.

Você já jogou na Argentina, no Paraguai, na Itália e na Rússia. Em algum lugar, houve uma identificação tão forte quanto essa aqui no Inter?

- Teve no sentido de fazer bem o trabalho, mas a identificação assim como tenho no Inter, com uma cidade dividida, é disparada a melhor coisa que me aconteceu.

Como foi sua infância em General Cabrera? O contato com a bola foi desde cedo?

- Veja só. Estou sentado aqui e tem uma piscina aquecida para as crianças na nossa frente. Lá fora, tem uma piscina de verão. Lá adiante, tem as quadras de tênis. E eu penso que não tinha isso quando criança para pular de um lugar para outro e não parar de brincar. Tenho que falar isso para meus filhos: “Aproveitem, porque às vezes a vida te dá isso.” Eu chutava bolas feitas com meias para jogar em qualquer espaço: dentro de casa, quando era noite, porque era frio, e minha mãe brigando com a gente, e na garagem, quebrando as coisas de luz e tudo. A bola sempre foi meu único brinquedo.

Como é a cidade de sua infância?

- Não tem apartamento. É uma cidade muito pequena, de dez mil habitantes, como se fosse um bairro de vocês. Lá, se tem um espaço com grama, não precisa se preocupar em cortar, porque todas as crianças vão jogar bola lá, aí já corta. Era só bola. As calças, quando dava tempo de trocar, eram verdes no joelho, porque caía e aí não saía mais. Era uma briga com as mães. Era sempre bola: contra os muros, com "goleiras" (balizas)…

Quando criança, você já corria sem parar?

- Sempre fui muito elétrico. Vejo meus filhos. Por exemplo, o Matías, que não para. Vai no colégio, almoça, joga tênis, tem escolinha no Inter, escolinha no colégio, aqui também se junta com o filho do Índio e outros amigos. Gosto que as crianças se cansem mesmo, que aproveitem.

Já mostramos, no GLOBOESPORTE.COM, que você está entre os líderes de roubadas de bola e de passes no Brasileirão. Está se tornando um jogador melhor com o passar do tempo?

- Quando o jogador tem experiência, vai aprendendo essas pequenas coisas, a levar uma falta quando o time está precisando, a não errar um passe, e vai entrando tudo na cabeça. Entrou agora o Marquinhos, que para mim joga muita bola, porque é rápido, tem muita qualidade. Ele deixou o Alecsandro na cara do gol. Fico muito feliz. Com ele, pode acontecer de fazer um drible a mais, e eu sempre tento falar. A experiência é isso, saber dar a bola na hora certa. Estou me sentindo muito bem, fazendo as coisas como querem os treinadores. Assim, vou ficando mais completo.

Como virou um jogador profissional do Newell’s Old Boys?

- Sempre se fala que existe uma idade para chegar no clube, se adaptar. Se o atleta tem 19, 20 anos, é complicado. Eu tinha 17, estava jogando em um time amador regional. Um dia, estava em casa de noite, jogando bola com um amigo, e chegou um carro, parou fora e perguntaram pelo “Chalito”, pelo “Chelito”. Aí meu amigo disse que não sabia, e eu disse: ‘ É Cholito!’. Era eu. Ele passou, entrou na porta e nós continuamos jogando. Depois de cinco minutos, eles me chamaram, eu entrei, e era um dirigente do Newell’s. Ele foi me procurar para me oferecer se queria tentar a sorte. Fui lá, fiz um coletivo, me tiraram e levaram para o clube. Assinei o contrato e deu tudo certo. Eu me apresentei em janeiro com a quinta divisão, que é a base. Depois, foi tudo muito rápido. Em seis meses, já joguei como profissional.

É sempre difícil esse momento de sair de casa e ir para outra cidade, não?

- É difícil. E eu sempre estava em casa com minha mãe, meu pai, meus amigos. Sofri muito, mas eu queria. Deixei o estudo, porque queria me doar cem por cento para ser profissional. Poderia ter estudado também. Foi um erro que cometi. Gostava do colégio, não era difícil para mim, mas deixei porque queria me focar no futebol. Hoje, com 31 anos, é uma dívida que tenho. Tenho meus filhos e vou tentar levá-los por esse caminho.

Por qual time você torcia na Argentina?
– Eu era River Plate. Depois, quando cheguei no Newells’s, jogando contra, a gente vira profissional. Quando criança, era fã do River Plate.

E também do Maradona, como todo argentino?

- Sim, sim, jogou muito. Um monstro. Para nós, é Maradona. E gostei muito de Francescoli, o uruguaio. No River, ele arrebentou. São os dois principais.

Guiñazu só lamenta ter largado os estudos, mas quer evitar que os filhos cometam o mesmo erro

Como foi a passagem pela Itália?

- Fui para o Peruggia, fiquei um ano lá, e foi muito lindo. Os melhores jogadores, Zidane, Ronaldo, Del Piero, todos estavam lá. Quando voltei, teve a possibilidade do Independiente, que é muito respeitado na Argentina. Aí decidi voltar, e essa volta me levou para a seleção.

Teve que marcar o Zidane?

- Tive que marcar Zidane no campo do Juventus. É impossível, rapaz. Eu tento encontrar parecidos… Sempre parecia que ele ia na mesma velocidade, e a passada dele tinha três metros. Ele te deixava chegar perto, mas quando dava um bote, não adiantava. Era muita falta (risos). Aí ele virava e dava de três dedos, de canhota. Esse cara é um monstro. Ele arrebentou. Jogava sozinho.

E na Rússia (jogou no Saturn)? Alguns jogadores, como o Maxi López, do Grêmio, dizem que lá é complicado, que é até triste…

- Eu tive a sorte de levar familiares, amigos. Nós fomos com uma cabeça positiva, sem essa preocupação de “onde estou”, porque é outra cultura, e são todos seres humanos. Vi gente sorrir, chorar, usar casaco porque estava frio e manga curta porque tem verão. A gente falava e eles não entendiam nada. Depois, aprendi um pouco de russo, aí a gente saía para onde queria. Tive um ano muito bom lá. Joguei todos os jogos. Passamos momentos muito lindos. Minha cunhada acordava e ia dormir com a barriga doendo de tanto rir. Passeamos, pegamos metrô, que atravessa a cidade em vinte minutos. Era um monte de gente, e nós lá no meio, olhando as placas, uma bagunça. Quando você espera para entrar, tem trinta querendo descer. A gente não falava que era falta de educação. A gente pensava que era assim mesmo. Nós, que éramos quatro, não mudaríamos o costume deles. Demos muita risada e passamos muito bem.

Aí chega 2006, e você, pelo Libertad, enfrenta justamente o Inter na Libertadores. Que lembranças você tem daqueles jogos pelas semifinais?

- O Libertad era um time arrumadinho, mas pequeno, com um presidente muito inteligente, que não deixava faltar nada. Não é um clube como o Olímpia e o Cerro. Tivemos uma tristeza muito grande. Chegamos tão perto… E fizemos um baita jogo aqui. Foi 2 a 0, mas com um gol já no fim, do Fernandão. Até o primeiro gol, a bola passava na pequena área e ninguém fazia. O time deu a alma. O sentimento até o primeiro gol era de o Beira-Rio estar mudo. E não era de medo, porque sei como é o clube. Era a emoção do que iria acontecer, como se fosse no cinema. E aí o filho da mãe do Alex fez o gol (risos). Foi a primeira vez em que ele saiu do meu lado. Do meu lado, levou muita pancada, porque eu sabia que ele chutava, já tinha a informação. Quando ele ajeitou, eu já disse: “Não deixa!”. Ele acertou e caiu tudo. Entramos no vestiário com uma alegria por termos chegado onde nós chegamos. Não era para qualquer um. E não foi sorte. Chegamos merecendo.

Nesse momento, você já tinha alguma ideia, informação ou pressentimento de que jogaria no Inter?

- Vou te contar uma coisa. Na véspera do jogo, quando estava no túnel antes do treino, um repórter veio atrás de mim e perguntou se eu sabia que viria para o lugar do Tinga. Eu não entendi bem. Saí para o treino sem entender. Depois, quando fui para o hotel, fiquei sabendo que o jogador poderia ser vendido. Depois do jogo, foram duas ou três pessoas do clube para falar comigo. Eu estava com a veia saltando de raiva e disse que não falaria. Em 2007, me procuraram. Não, antes: foi em 2006.

É verdade que esteve muito perto de jogar no Grêmio?

- Verdade. Um dia, uma pessoa foi na minha casa, ficou uma hora e meia falando do interesse do Grêmio, me ofereceu um contrato. Estava tudo certo, só que não houve acerto com o Libertad. Se o Grêmio acertasse, eu viria, porque estava no Libertad, com mais seis meses seria um jogador livre e não faria isso com o presidente. Deixei à disposição dele a possibilidade de me vender antes. Depois, ele me falou do Inter, e aí foi lá o senhor Silvio Silveira (diretor de futebol), e nós acertamos. No dia seguinte, resolveram tudo no papel e cheguei ao Beira-Rio.

A ideia de que você, tão identificado com o Inter, poderia ter jogado no Grêmio é um pouco estranha, não acha?

- Parece estranho. Mas a gente está falando de coisas que poderiam ter acontecido quando eu estava no Libertad. Não tinha passagem nem por Inter, nem por Grêmio, e eu queria jogar no futebol brasileiro. Não sei se dá para imaginar. Mas assim é a vida, assim é o futebol. Agradeço ter vindo para o Inter. Fica estranho, não dá para imaginar, mas sempre respeito todos os times, não só o Grêmio.

O torcedor do Inter tem idolatria por você. E costuma brincar dizendo que você não cansa, que não sente dor. Não deve ser bem assim…

- Claro que não. Outro dia, no domingo (depois do Gre-Nal), cheguei, sentei na frente da televisão e dormi, sem me mexer. Sinto muita dor. Acordo e não consigo me mexer. Fico dois, três dias assim. Porque não me importa se é final ou não. Se você jogar tênis comigo, vai suar o dobro. Não importa se vai ganhar de 6-0, mas vai suar. Para mim, sempre é possível virar.

Sente que corre mais do que os outros?

- Tento ajudar meus companheiros. Às vezes, se posso correr dez metros e roubar a bola, faço isso. Mas não é para correr mais. É uma bola que recuperamos para o time.

Como pode um dos melhores jogadores do Campeonato Brasileiro não ser lembrado para a seleção argentina? Não é injusto?

- Não gosto de falar muito. Pode ser injusto. Respeito os jogadores convocados, mas nunca tenho medo dos que estão lá. Se eu tiver uma chance, vou dar no meio, como vocês falam. Não tenho medo. Tenho respeito pelos jogadores e vou fazer meu trabalho, sempre dar mais, para eles poderem me olhar, me convocar. Estou muito feliz e orgulhoso do que estou fazendo.

Ainda tem esperança de disputar a Copa do Mundo? Há tempo?

- Sempre há tempo. Dos jogadores que classificaram a Argentina, quatro ou cinco nunca haviam sido convocados. Futebol é assim mesmo. Tem tempo. É por isso que tenho que trabalhar até o fim.

Se você deixasse o Inter hoje, que lembrança levaria?

- A torcida. E não só a que está atrás do gol. Toda a torcda. No domingo, cobriram o estádio todo. E aí tem esse carinho que você falou no início da matéria. Não tem lembrança maior. Posso ir para a lua jogar e não vai ter igual. Isso é único. É maravilhoso.

No seu site (www.chologuinazu5.com.br), aparece um perfil seu, e uma das perguntas se refere a qual o maior sonho que você tem. A resposta é “ser campeão brasileiro”. Você, quando coloca a cabeça no travesseiro, pensa nisso? Pensa na imagem de levantar a taça que o Inter não ergue há 30 anos?

- Além de um sonho, é uma pressão. Estamos aí, pode acontecer, como pode não acontecer. Estamos perto. É muito complicado o Brasileirão. Qualquer time tem jogadores com qualidade. É difícil, é complicado, mas a gente está perto. Não dá para deixar de sonhar. É todo dia, é quando vou dormir. Depois do clássico, estava com uma tristeza anterior, e tinha vencido o Gre-Nal! Foi porque tomei o terceiro amarelo. Eu queria morrer! O pessoal saiu para a viagem e eu fiquei mais quinze minutos lá dentro. Estava morto. “Esse jogo, não”, eu disse. Mas é o futebol. Sou um cara que sonha. Dá para pensar, dá para sonhar, e a rapaziada vai mostrar que é possível.

2 Respostas to "Oooooo ooooo Guinazu!!!!"

Continue escrevendo posts como esse.

Artigo útil de verdade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Adicione o seu e-mail para receber as últimas opiniões dos cromistas de plantão.

Junte-se a 11 outros seguidores

Calendário

outubro 2009
S T Q Q S S D
« set   nov »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  

  • 20,956 hits
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: